Um copo de cerveja, um samba de mesa.

Sobre o tampo pesado de madeira da mesa - com corações e nomes de antigos ocupantes riscados à chave - um copo de cerveja e um cigarro que queima lentamente. O rapaz se senta naquele velho banquinho de madeira comida e come. Ao gosto da lingüiça acebolada vê a mulherada rebolar no batuque gostosinho que só um bom bongô pode fazer. Fecha os olhos. O molho da pimenta queima a sua boca, o cheiro da morena lhe queima de amor. Voltou ao samba, voltou à vida, sentira uma falta enorme nesses dois anos passados fora do país. Agora, entre baforadas, se embebeda, se lambuza com os olhos fechados. O som repentino da cuíca faz seus órgãos se estremecerem. Estranha sensação desagradável, estranho prazer.

Levanta, pandeiro o chama - mais um trago do cigarro, um gole da cerveja no copo americano. Recusa a cachaça, não precisa mais dela, nem do amigo que roda as bocas da mesa. A entidade já entrou, só pode ser Nêgo Véio, caso contrário, como um alemãozinho daquele poderia sambar com tanto vigor, tanto amor, no cundum, bate pé e gira-gira. Quem não entende do que vê se apaixona e quem entende também. A cena era bonita até para os turistas do local com seus dedinhos levantados e olhos vendados pela falta completa de sensibilidade.

Alemãozinho que brilha, esbarra numa mão e já desliza. Puxa aquela morena que a tanto instigava seus instintos. Samba em volta dela e pede permissão para entrar. Um sorriso e um baixar de olhos são o suficiente. Como se flutuasse em uma passada rápida, aproxima seu corpo ao dela, sambam sem se encostar. Do cotovelo, a mão desce até o pulso lentamente. Os dedos deixam como rastro na pele macia, pelos arrepiados. O segurar a mão dela com mais vigor era o sinal: Puxão previamente avisado pelo olhar e ela gira, gira, a saia colorida ao ar, calcinha pequena e polpa grande e brasileira acostumada a sambar. No fim do giro ele põe o braço em suas costas e a puxa ao seu encontro. É o último suspiro. Respiração ofegante. Descompassada. No compasso do parceiro, estranha harmonia. Almas combinando. O que viria a seguir?

Sairam daquela casinha avermelhada no bairro mais boêmio da cidade caos. Lugar cheio de vida e espíritos, encarnados e desencarnados dançam a dança da vida. Alemãozinho nunca se sentira tão vivo nos últimos anos. E, por capricho divino o vizinho da frente era um cemitério. Dos mais tradicionais da cidade, jaziam ali todo tipo de aristocráta. De combatentes guerrilheiros a importantes políticos, corpos de mentes inquietas serenavam sob as súplicas dos anjos de pedra sabão. Esses anjos sempre lhe chamavam a atenção. Possuiam todos, manchas sob os olhos parecidas com lágrimas - resultado da ácida chuva que queimava a pedra e limpava consciências.

Depois de gastar a energia do corpo dançando, a do instinto se esfregando e a da alma incorporando alemãozinho se sentia bem. Nem a ressaca da cachaça maldita e a dor de cabeça plantada pela semente de fumo ruim deixavam alemãozinho fora do seu eixo. Seus movimentos eram precisos. Nada como sair do corpo para tomar conhecimento dele.

Mão no cotovelo, desliza à mão, abre a porta do carro e põe a bela morena dentro - grande conquista, era agora menor do que parecia enquanto dançava. Antes parecia uma gigante, mas o corpo era pequeno - alma grande, corpo pequeno. Entra do outro lado, põe a mão nas coxas dela e pede pra pegar o som no porta-luvas. Não põe samba, não tem direito de fazê-lo. Não depois de escutar Adoniran, Cartola, Pixinguinha e Dorival pelas mãos e vozes virtuosas do grupo de Choro que a pouco, sentado em volta de uma mesa amarela, tocava a Alvorada ao gosto de amendoim e de cachaça Seleta. Escolhe então um desses sons contemporâneos, que como o próprio alemãozinho tem um pouco de tudo, a África do Samba, o Flamenco espanhol, o Jazz lá do norte, uma farofa à brasileira.

Em casa, pôs a morena na cama. O pano fino que antes esvoaçava em rodopios agora esvoaça em direção ao chão. Entre beijos e cheiros os corpos se fundem, se fodem, se amam. E como não dizer que é amor? Por mais que os corpos nunca mais voltem a se ver o amor existiu, pela intensidade e sinceridade.

Fizeram samba e amor até mais tarde. Durante o sono, cada mudança de posição os acordava pedindo mais namoro. Assim foi até o meio dia do dia seguinte. De manhã, aquele cansaço feliz, de mente leve e corpo preguiçoso não os deixava levantar. Sorte, era domingo, poderiam desfrutar aquele eterno espreguiçar e enfim conhecer o que já conheciam tão bem: um ao outro.

Menina Babel, pele de jabuticaba e sobrenome francês. Caminhava balançando tanto as cadeiras que parecia acompanhar um tamborim imaginário. Fôra apresentada ao samba através do Umbanda, crescera no terreiro, mas hoje em dia trabalhava como passista em centro espírita - e em escola de samba também, passista de dia e de noite, freqüentadora assídua daquele cantinho mágico na frente do cemitério. Estava acostumada a romances rápidos e fulminantes. Casos como o daquele loiro com cara de gringo que conhecera na noite anterior não lhe causavam grandes alardes. Pensava ser curioso como havia pessoas que levavam um romance casual como um contato entre almas, a troca de saliva como mais que uma demonstração de atração física.

Aproveitava que o galego simpático lhe pagava um café e lhe fazia companhia em um domingo solitário para bater papo. Terminado o café saíram e se sentaram no parque da cidade. O alemãozinho estendeu o papel de seda e sobre ele despejou a flor picada. Com prática de anos enrolou e levou à boca.

Acendeu numa puxada, duas puxadas, três, segura…Passa para a morena encantadora ao seu lado. Ela puxa, solta uma fumacinha pela boca e a recupera pelo nariz. Fumava, tentando calar uma voz que insistia em voltar, lhe perguntando coisas que não podia (ou queria) responder. O cérebro lhe comprimia o coração e com amarras nos pés tentava em vão vagar em pensamentos livres e soltos.

Ficaram nessa até a ponta dos dedos não terem mais aonde segurar. Deitaram-se na grama e contemplaram o sol das quatro horas refletindo no lago do parque. Ele fechou os olhos sentindo a grama pinicar seu corpo e a mosca que lhe pousou no rosto caminhar de lá pra cá fugindo de assopradas e balanços de nariz – e nesse momento sentiu que a amava e a compreendia. Já ela estava contente em ter uma boa companhia ao invés de estar em casa vendo algum programa de auditório na televisão.

Pitaco!

Meu nome é Pedro Kelson, 23 anos, estudante de administração da ESPM-SP.

Esse Tumblr tem como objetivo me permitir dar um pitaco sobre tudo o que eu gosto e não gosto, analisar, dissertar e divagar…contar histórias!